Terça-feira, Junho 05, 2012

Cosmopolis

E foi este o filme que me apeteceu ir ver. Fui ver porque a escolha era já reduzida, e porque tinha alguma curiosidade em perceber o trailer que por aí circula, sabendo que o filme tem mão nacional.
Com suficientes actores europeus a fazer papéis de americanos, a sessão pareceu-me longa (nunca é bom sinal) e teve desistências. Pelas minhas contas, foram oito os mecenas que não honraram o filme com a sua presença até o começo dos créditos finais. cerca de metade dos presentes no início, portanto. E eu compreendi-os.
Este filme pretende ser um filme provocador, mas não passa disso mesmo, da pretensão. Uma amálgama de discursos demagógicos disfarçados de diálogo, pontuada a monólogos pejados de um pretensiosismo doloroso, é a base do filme. Os actores, quase todos com actuações suficientes (Sarah Gadon tem uma cena ou outra algo fraca), nem interessam muito nesta minha partilha. Vou só destacar Paul Giamatti, que não consegue ter desempenhos inferiores a "muito bom".

Sábado, Maio 12, 2012

Caros Indignados,

Querem soluções para a crise? Também eu. A minha sugestão é que exijam menos soluções. Exijam antes que vos soltem as amarras que alguns de vocês (a maioria, provavelmente) querem ver fortalecidas e apertadas, em nome de uma espécie de solução messiânica. 
Exijam que o estado se limite, para que não vos atrapalhe. Exijam ficar vocês com a responsabilidade de fazer as escolhas da vossa vida, e arcar com as consequências. Exijam que o estado vos deixe ser adultos; indivíduos de responsabilidade plena, com tudo o que isso traz de bom e mau, longe do paternalismo castrador do estado.
Em vez de mais estado e mais segurança, exijam mais liberdade e mais vida.

Terça-feira, Maio 08, 2012

Um poemita para alegrar.

Prova

Não me queiras, abismo!
Repele a tentação...
Obriga-me à normal aceitação
Do negro pesadelo de viver.
Cega, mina a toupeira o chão
À procura dos olhos que perdeu.
Assim amaldiçoa a maldição...
Assim se justifica o que nasceu.

Nega-me o teu abraço,
Caridoso.
Mesmo odioso,
O mundo vale a pena.
É uma arena
Sem esperança
Onde o corpo exercita
A confiança
Que lhe merece a alma que o habita


Miguel Torga, in Câmara Ardente

Segunda-feira, Abril 23, 2012

Mais cinema - Um respeitável grupo de vetustos actores

The Best Exotic Marigold Hotel (O Exótico Hotel Marigold), de John Madden, foi o filme que escolhi recompensar com o meu bilhete, comprado com o desconto do cartão de fidelização, neste serão de Domingo. Divertido quanto baste, este filme fez-me sorrir de gozo e alguma ternura (lamechices, eu sei), e fez-me pensar sem ser condescendente.
Para mim, o maior ponto de atracção deste filme é ver o desfile de boas e seguras interpretações por parte de um grupo de actores britânicos de cabelo grisalho. Foi ver a senhora Judy Dench, o meu sempre favorito Bill Nighy, a sempre entretida Maggie Smith, e o intenso Tom Wilkinson a espalhar a sua suprema arte, muito bem acompanhados por outros actores que não cito aqui por pura preguiça.
É um filme que aconselho vivamente, pelo exotismo, pela arte dos actores experientes, e pelas deliciosas histórias interligadas entre si.

Terça-feira, Abril 17, 2012

Sobre Cinema - Sim, vi o Mirror Mirror

Desta vez foi o Mirror Mirror de Tarsem Singh, que (não sei porquê) suspeito ter invejado os dotes dos realizadores dos filmes que via ao crescer, criados naquele radioso, se bem que irritante, nicho da indústria cinematográfica conhecido por Bollywood. E não o digo pelo nome; depois explico. Fui ver, como se adivinha, a versão original, que o tradutor não se inibiu de intitular de Espelho Meu, Espelho Meu! Há Alguém Mais Gira do Que Eu?, sem dúvida uma partida aos desgraçados responsáveis por inserir os títulos nos quadros electrónicos das bilheteiras deste país. Agora, o filme.
A base do enredo não é segredo para ninguém, mas esta é uma versão — e é uma versão com piada. O melhor da história está nas personagens, bem trabalhadas pelos actores que as representam, com um especial destaque para Julia Roberts. A amiga Julia desenrasca-se bem como bruxa/madrasta má, com toques de humor requintados, dando alguma profundidade a uma personagem que não tem profundidade — é má, ponto. O colorido, por vezes exagerado, trazido (penso eu) de Bollywood, traz uma sensação de desenho animado ao filme, o que dá dar jeito para satisfazer os petizes, e os fãs de desenhos animados. (Eu?! Mentira! Pronto... um bocadinho.)
Para quem se quer rir um pouco, vale a pena. Para quem quer distrair os miúdos, vale a pena. Para quem sente náuseas ao ver aqueles enormes e musicais finais de assinatura de Bollywood, com coreografia tipo flash-mob-em-que-todos-participam-mesmo-que-só-lá-tenham-ido-para-mostrar-o-figurino, fuja da sala mal os heróis trocam o beijo que lhes sela o matrimónio. Mas fuja a sete pés...

Segunda-feira, Abril 16, 2012

Sobre Cinema - golpe de génio, ou desilusão?

Fui ver o filme Gone, de Heitor Dhalia (que as distribuidoras portuguesas venderam como Gone - 12 Horas), com a Amanda Seyfried, na interpretação da única personagem com volume naquele enredo (escrito por Allison Burnett), classificado como thriller dramático. Este é daqueles filmes cujo trailer promete. Promete nervos em franja e faz adivinhar surpresas em catadupa, pondo o cinéfilo que há em mim — e que ocupa muito espaço — a adivinhar conjunturas, conspirações, cambalhotas de enredo e outros tropeções nas resoluções alternativas da imaginação de quem o vê. Promete... mas não cumpre.
Desde personagens cujas primeiras aparições parecem sugerir importância na criação dos conflitos a resolver durante o filme, e que depois não são mais que placas de indicação do caminho, até à tentativa de manter a linha de dúvida inicial acerca do que realmente se passa, tudo falha. E falha por falta de vontade, parece-me. É como se o argumentista traçasse uma recta e a enfeitasse com uns pífios raminhos quebradiços. As cenas de suspense duram curtos segundos, muito curtos, e não alteram grande coisa no enredo. A resolução final do conflito lembrou-me daquela sensação de pegar no copo de refrigerante, para dar o último gole, e descobrir através do palato que já só há água do gelo no copo. Sempre temos alguma sensação de "bem feito!", mas não é suficiente.
Ainda há uma cena final, pós resolução, que pretende lançar novas dúvidas sobre o que acabamos de ver, mas, fazendo outra referência à gastronomia das salas de cinema, é mais como ir buscar as últimas pipocas ao balde e não encontrar nada a não ser migalhas, milho por rebentar e as casquinhas que se agarram à língua e se colam aos dentes. Já vem tarde, e vem sem força.
Depois de tanta volta que imaginei, e não dei, de tanta bofetada mental antecipada, e não recebida, fiquei sem saber se não seria essa a intenção — fazer a malta pensar que vai acontecer algo, mas afinal... nada — se realmente a coisa foi mal feita. Será este um golpe de um génio tão superior que me ultrapassa a compreensão, ou será mesmo uma desilusão? Não sei.

Ao ler a curtíssima sinopse deste filme no IMDb, fico com a sensação de que leio 90% do enredo — só falta dizer como acaba (mas não é difícil de adivinhar).

Quinta-feira, Março 01, 2012

Um pulha

Pepe Reina, guarda-redes do Liverpool e companheiro de aquecimento de Iker Casillas na selecção espanhola, é acusado de racismo (pelos ingleses, quem mais?) por participar num spot publicitário de uma seguradora espanhola, onde Reina visita uma tribo sabe-se de proveniência dúbia, quase todos de fenótipo  sub-sahariano, em que não percebe o que é dito e o tradutor se escusa a traduzir enquanto faz uma careta esquisita. Logo de seguida, enquanto lhe colocam uma coroa de flores na cabeça, é empurrado por uma tribo em festa tribo na direcção do rei, de fenótipo caucasiano escurecido à pincelada cosmética e de intenções suspeitas, enquanto Reina declara (com um pequeno toque musical) sentir-se seguro. Não vejo nada de mal nisto.
Entretanto, vendo esta série de filmes publicitários completa, deduzo que os súbditos de Elisabeth II — e outros quantos concordem com eles — achem que Pepe Reina tem algo contra montes de músculo de sobrancelhas espessas que possuem motociclos, ou contra pessoas que saltam de um avião, em tandem com ele, sem experiência de salto e voz de falsete, ou contra condutores de autocarro com acentuada deficiência visual que põem a mãe, com igual deficiência, a conduzir o autocarro em que seguimos para lhe pedir um autógrafo.
O homem não tem correcção política nenhuma, pelos vistos. Um verdadeiro pulha.

... que pariu! (Mas em cooperativa!)

Ora aqui está uma notícia que me fez pensar um pouco. Pessoalmente, diz-me pouco — não sou nem alguma vez fui cliente de qualquer meretriz, com ou sem relações públicas/segurança/violentador. Nada tenho contra a prostituição, tal como nada tenho contra, por exemplo, colonoscopias. Simplesmente nunca adquiri nenhum dos serviços, e espero nunca vir a sentir necessidade de o fazer. Já contra o empresário multifacetado que faz uso de qualquer tipo de violência para manter a funcionária na linha, tenho muito contra. Dá-me asco, confesso.
Mas heis que, o presidente do município lisboeta, influenciado pelas caridosas noivas de Cristo, pretende recolher as outras senhoras, aquelas que alugam os seus carinhos a quem se dispõe a pagá-los, debaixo da asa da burocracia.
Em vez de legalizar, por completo, um negócio cujo único desfavor é de índole moral (algo que é privado e diferente de indivíduo para indivíduo), levando a que os bordéis — isso de safe house, além de um estrangeirismo desnecessário, é estritamente estético — pudessem surgir naturalmente, quer pela mão de um ou outros empresário multifacetado (e que assim ficariam sujeitos à mesma relação laboral de, digamos, um empresário da restauração com os seus empregados, e que não inclui a sova), quer pela mão de um qualquer grupo de prostitutas que se quotizem numa cooperativa, ou se promovam a madames. Mas não. O presidente da Câmara pretende, em vez disso, obrigar as profissionais à cooperativa e ao controlo burocrático. Talvez ganhe votos da parte de algumas almas mais filantrópicas, das meninas que exercem tão antiga profissão, ou de alguns dos seus clientes menos tímidos e menos propensos à efectivação do acto ao relento ou na apertada viatura. Perde, de certeza, os votos dos empresários do ramo, digo eu.
Talvez se a fome de poder sobre as decisões dos indivíduos não fosse tão grande, a ideia passasse, antes do resto, pela despenalização total. A moral e a ostracização social fica à responsabilidade de cada um.